COME E CALA-TE!

navegar

A pedra basilar da educação, nos últimos anos, da nação Lusa resume-se a isto: Come e Cala-te! Come o que tens à frente e não reclames! Como e agradece, que o respeitinho é muito bonito!
Pensar, questionar, reclamar discutir são palavras vãs e sem significado. As pessoas de bem não contestam. Apenas seguem a ordem instituída. Vivemos num país onde continuamos com os mesmos problemas do século passado. Lemos este texto do Eça e temos a sensação que este texto foi escrito esta noite.
Temos um problema de mentalidade, um problema na forma de pensar e viver a vida. Continuamos a ter uma mentalidade de agricultura de subsistência. Produzimos apenas para o dia a dia. Pior. Trabalhamos para obter o necessário para sobreviver. Neste país, poucos sonham em navegar além da linha do horizonte. Na verdade …poucos navegam…

O Que Verdadeiramente Mata Portugal

 ”O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.
Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»”

Eça de Queirós, in ‘Distrito de Évora’

26

10 2013

Caridade envergonhada!

Famílias necessitadas de Vigo vão jantar a uma cantina solidária. Para as crianças não se aperceberem da situação, os voluntários comportam-se como empregados hoteleiros. Levantam os pratos e fornecem um menu de sobremesas, para que os mais pequenos possam escolher uma pequena guloseima.

Vivemos tempos difíceis e muito duros. Os nosso vizinhos Galegos, que tiveram uma vida agradável nos últimos anos, sofrem mais abruptamente esta crise. Passam do 80 para o 8 em poucos meses. A indústria Galega está mais debilitada que nunca e o desemprego é uma calamidade. A Galiza possui a segunda maior taxa de crescimento de desemprego entre as regiões autónomas.

07

02 2012

Projecto DESEMPREGADOS.net

No início do mês de Maio saiu à luz a Rede social DESEMPREGADOS.net, fundado por mim e pelo meu amigo Fernando Correia.

O projecto tem como como objectivo principal ajudar todos aqueles que se encontram numa situação de desemprego. Idealizamos um modelo em que os utilizadores se pudessem ajudar através de partilha de ofertas de empregos, dicas para concorrer eficazmente a novos empregos, apoio e suporte emocional entre utilizadores,  apoio e incentivo ao empreendedorismo, etc.
O  projecto DESEMPREGADOS.net foi muito bem recebido pelos meios de comunicação social e o impacto foi verdadeiramente surpreendente. Durante cerca de três semanas fomos notícia no Jornal de Notícias, no Jornal Metro, Antena 3, Porto Canal e falaram de nós em vários canais de televisão.

Desde muito cedo nos apercebemos que os utilizadores se organizaram e começaram a criar grupos, dar sugestões, discutir ideias e a sugerir novas temáticas. Esse era exactamente o nosso objectivo. Que fosse uma Rede Social e que fossem os utilizadores a criarem os conteúdos e a dinamizarem a comunidade.

Temos várias ideias para implementar no DESEMPREGADOS.net, e pensamos que podemos mudar o paradigma de procurar emprego em Portugal. Queremos que procurar emprego seja um acto social e não uma simples pesquisa das ofertas de emprego num dos muitos sites de emprego existentes. Por outro lado, os utilizadores têm a possibilidade de criar e enriquecer o seu perfil com algumas informações sobre si. Algo muito simples, directo,  pessoal e que nos dê uma ideia da visão do candidato. Actualmente as cartas de apresentação e os currículos Europeus são uma pura aberração e não mostra nada ( do que é mais importante) sobre o candidato:  A Sua inteligência emocional .
Estes sistemas apenas servem para colocar candidatos em engrenagens com  cartas de apresentação incipientes e, que na verdade, não aportam nenhuma informação importante sobre o candidato. Porque razão os recrutadores continuam a  pedir uma carta de apresentação, se não as lêem de uma forma séria, já que as cartas vem cheias de chavões, clichês e frases feitas ? Mais : Como é que um recrutador que usa estes métodos antiquados, desadequados pode merecer a confiança de escolher o melhor candidato para uma empresa ?
Pessoalmente já estive numa entrevista de emprego feita por psicólogos e que incluía entrevista, testes psicotécnicos e mais  umas “palhaçadas” . A única ideia que me ocorria durante aquela tarde circense era : “Como é possível esta gente recrutar desta forma ?” . A entrevista feita por uma psicóloga foi absolutamente hilariante, para não dizer algo mais tenebroso.

Outro grande objectivos do DESEMPREGADOS.net é estimular e consciencializar os desempregados para o empreendedorismo. Precisamos de pessoas que criem empresas e que implementam novas ideias e, sobretudo, que inovem. Para isso, precisamos de um ecossistema emprendedor dinâmico e diversificado. Nos nossos tempos tudo está formatado para termos um emprego. Esses sãos os “normais” e os “espertos”. Não arriscam nadinha até têm um bom ordenado e boas regalias sociais, e os seus amigos elogiam-lhe a capacidade de manter o emprego “certinho”.
Os finalistas universitários saem da Universidade com um único objectivo : “Conseguir um emprego”! Não deveriam de sair com aspirações a algo mais ? Não deveriam de sair com a aspiração de criar projectos inovadores na sua área de estudo ? Não deveriam de ser moralmente responsáveis por a criação de emprego ? As universidades não deveriam de chamar os empreendedores às Universidades para leccionarem Empreendedorismo com base na sua experiência ?


Num futuro próximo teremos novidades muito interessantes e inovadoras. Desde que o projecto se tornou público várias empresas ligadas à tecnologia disponibilizaram os seus recursos e conhecimentos técnicos para tornar este projecto mais ambicioso. Estamos a trabalhar para melhorar o projecto.
Durante as duas próximas semanas teremos excelentes novidades!

Fait Diver :)  : O DESEMPREGADOS.net  foi montado com menos de 100 €, uma ideia interessante e bastante imaginação!

28

05 2011

The Mobile Movement: Understanding Smartphone Consumers

Alguém dúvida que o presente e o futuro é completamente móvel ?

 

22

05 2011

Como se trabalha e se vive no Facebook


Interessante reportagem, emitida pela MTV, sobre a vida no Facebook.Nota-se um ambiente completamente informal e jovem. Esta reportagem mostra duas vertentes da empresa, a social e o ambiente laboral. Por outro lado mostra-nos um Mark Zuckerberg bem diferente daquele que foi pintado no filme a Rede Social.

 

Life in Facebook: Part 1

Life in Facebook: Part 2

Life in Facebook: Part 3

Life in Facebook: Part 4

Imagem | www.shockya.com

23

04 2011

Educação das crianças baseada na empatia e no respeito

Numa altura em que muito se questiona o papel das escolas e das universidades na educação dos cidadãos, deparo-me com este documentário que acompanha um grupo de alunos, durante um ano, no Japão.

Neste documentário o Professor Toshiro Kamamore ensina os seus alunos, antes de mais, a serem felizes! Muito felizes! No entanto também ensina os mais pequenos a lidar com as suas emoções e a serem solidários com os seus companheiros. Na turma cria-se uma espírito incrível de solidariedade e empatia mútua. Assuntos delicados como a morte são discutidos e partilhados em forma de vivências e emoções. Abre-se naturalmente o caminho para que certas crianças libertem de uma forma natural as suas emoções retidas e não resolvidas.

As crianças aprendem e interiorizam valores pessoais e sociais, mas, muito mais importante, aprendem a dominar e a terem  ”Poder de Encaixe” sobre as suas emoções.

Não será esta uma escola que ambicionamos ?

 

 

Os restantes partes do documentário podem ver no seguinte link do youtube.

Foto | Oyvind Solstad

11

04 2011

Os novos desafios do Marketing através de campanhas virais móveis!

Na semana passada estive na OMexpo Madrid, feira de Marketing Online, que se realizava em paralelo com uma feira de comércio electrónico. Fiquei muito surpreendido com a qualidade e a dimensão da feira. Durante dois dias havia 7 salas de conferências, em simultâneo. O complicado era mesmo seleccionar as apresentações a assistir. Por vezes, chegava a ser doloroso, perder algumas excelentes conferências em detrimento de outras.

Depois destes dias em Madrid ainda participei TEDx O’Porto. Fui directamente do aeroporto para a casa da música. :)

Algo que ficou bem claro em Madrid era o interesse dos visitantes pelo marketing móvel. A sala de conferências Vodafone, estava sempre cheia. Muitas pessoas não conseguiam entrar e havia pessoas sentadas pelo chão e no meio dos corredores. A sala “móvel” foi a mas visitada da feira. Não me querendo alargar muito mais, gostaria de deixar três excelentes exemplos de Marketing Móvel. Três campanhas absolutamente virais e fantásticas.

 

Aplicação para iPhone desenvolvida pela Durex :

iButterfly – A aplicação que colocou meio Japão a caçar borboletas :

Paginasamarillas.es – Realidade aumentada :

 

26

03 2011

A ganância do PSD pelo poder afundou Portugal !

Ontem foi um dos dias mais terríveis para Portugal. O PSD reprovou o PEC IV na assembleia da república, abrindo caminho para a demissão do Primeiro Ministro e  a respectiva  dissolução do parlamento.

 

Porque razão é que esta é uma má decisão do PSD ( a pior decisão para o país ) é má e quais vão ser as consequências ?

Estando Portugal a ser alvo de ataques ferozes de especuladores e de pessoas que possuem interesses económicos que Portugal afunde, o país devia de estar mais unido que nunca. As medidas dos vários PEC são dolorosas. Entram nos bolsos de todos os portugueses e ninguém gosta de pagar mais impostos e ganhar menos. Muito menos os Portugueses, em que a visão não vaio muito além do seu umbigo. Todos sabemos que temos de dar sinais claros ao BCE e à União Europeia que estamos a fazer os possíveis e os impossíveis para melhorar a nossa situação financeira. São medidas impopulares. Mas são medidas necessárias.

O PSD não concorda com as medidas e nãos as aprova. Dizem que são demasiado duras para os Portugueses. Claro que são. Todos o sabemos. Mas todos sabemos que se o FMI entrar vai cortar muito mais, vai obrigar a despedimentos de funcionários públicos, vai obrigar  a mais cortes nas ajudas sociais e, possivelmente, vão aumentar os impostos. Resumindo, vão impor um PEC IV(Ao Quadrado) . Ou seja : Nós os Portugueses (Classe média e Baixa) vamos pagar o dobro ou triplo.

Porque razão o PSD não apresentou alternativas realistas ? Porque razão a Europa aplaude (de pé) as medidas de PEC IV e o PSD toma esta decisão vergonhosa ? Porque razão o PSD já admite subir impostos ? Porque está sedento de poder.

Não nos enganemos. O PSD se entrar para o governo vai tomar as mesmas decisões. Vão apertar ainda mais as grilhetas do nosso povo. Não têm hipótese de fugir disso. Nenhum governo tem.

Por fim, os que defendem a entrada do FMI em Portugal, como sendo a melhor solução, são muito pouco inteligentes e muito menos informados. Se estivessem informados e se a sua visão fosse um pouco além do seu umbigo, poderiam ver que o FMI não resolveu nada na Grécia e na Irlanda. Aliás só piorou mais a situação. A Grécia anda a pagar cerca de 13 % pela dívida pública e a Irlanda anda a rondar os 10 %. Por isso, alguém que defende a entrada do FMI, ou tem uma percepção da realidade muito enviesada ou vive noutro universo.

 


Foto | Rui Ornelas

 

24

03 2011

Arriscar Tem a Ver com Confiança

Arriscar tem a ver com confiança. Uma pessoa sem confiança vai tentar repetir, fazer igual aos outros, não cometer erros, que é uma ideia muito valorizada. Mas o erro está ligado à descoberta. É fundamental não ter medo nenhum do erro. O que é o erro? Eu tinha previsto ir numa determinada direcção e não fui, errei. O erro é encontrar alguma coisa, algo que se cruza com o novo, o criativo.

Gonçalo M. Tavares, in “Entrevista a MilFolhas (Público), em 8 Janeiro 2005″

Foto | krossbow

05

03 2011

“O Norte” por Miguel Esteves Cardoso

O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal

Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país

Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.

Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.

Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.

Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade.

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.

Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o “O Norte”.

Defendem o “Norte” em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer “Portugal” e “Portugueses”. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como “Norte”. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?

Escrito por Miguel Esteves Cardoso

02

03 2011